Vamos nos conhecer, eu imagino que devemos nos conhecer.

Era um menino de nove anos que acordava cedo, antes do sol esquentar o telhado de zinco. A casa era grande para os padrões do bairro — e permanece na família até hoje, como uma herança viva. O que mais emocionava naquela construção não era o tamanho, mas a memória de como ela havia sido erguida: todos os membros da família, lado a lado com os pedreiros e funcionários da obra, cada um fazendo a sua parte. O cheiro da manhã misturava café coado no pano com o ar úmido e salgado que só o Rio de Janeiro sabe oferecer — a cidade de São Sebastião, padroeiro e símbolo de devoção de toda uma nação.

Aquela família carregava raízes fincadas em Portugal. Por volta de 1850, modestos agricultores e produtores de vinho do interior português haviam cruzado o Atlântico com suas economias guardadas a duras penas, trazendo na bagagem não apenas o dinheiro, mas uma cultura de trabalho, simplicidade e dignidade. O bisavô do menino foi um desses que chegaram com as mãos calejadas e a determinação de construir algo novo em terra estrangeira. Não eram ricos, mas tampouco chegaram de mãos vazias — e essa diferença sutil moldou o caráter de cada geração seguinte.

As roupas eram simples e muitas vezes passadas de irmão mais velho para mais novo. O tênis, quando existia, era o Conga ou o Bamba — usado até a sola começar a se desprender. Não havia vergonha nisso, porque quase todos ao redor viviam de forma parecida. A herança portuguesa trazia consigo uma austeridade natural, aquela cultura de não desperdiçar, de remendar antes de descartar, de honrar o que foi conquistado com esforço. As crianças aprendiam cedo que o valor das coisas não estava no preço, mas na história por trás delas.

A escola pública era o grande palco da vida social. Caderno Tilibra, lápis Faber-Castell e uma borracha branca eram tesouros guardados na mochila de lona. Mas o recreio era sagrado — bola de meia, bolinha de gude, figurinha e esconde-esconde enchiam aqueles vinte minutos de uma alegria barulhenta e genuína. E depois da escola, as tardes pertenciam à rua e aos morros do Rio, àquelas vielas e esquinas que guardam em cada pedra uma história de gente simples que construiu uma cidade extraordinária.

Por dentro, aquele menino carregava sonhos que ainda não tinham nome. Ele não sabia nomear a riqueza que havia nele — não a riqueza do dinheiro, mas a de pertencer a uma linhagem de pessoas que cruzaram oceanos, que plantaram videiras em Portugal e lançaram raízes no Brasil, que ergueram uma casa com as próprias mãos junto aos vizinhos e trabalhadores. Havia uma dignidade silenciosa e profunda em tudo aquilo. Uma identidade construída tijolo por tijolo, geração por geração, à sombra do padroeiro São Sebastião, no coração mais humano do Rio de Janeiro.